Pr. Dr. Gervásio Melquiades Gomes
Quando lemos o Novo Testamento de maneira honesta, não podemos evitar ter a impressão de uma vasta diferença de muitas experiências cristãs contemporâneas. Para os cristãos do Novo Testamento, o Espírito Santo era uma realidade de experiência. Para muitos cristãos hoje é uma realidade doutrinária[1], ou seja, em algumas igrejas se ensinam buscar esse dom. Isso com certeza é proveniente de um movimento chamado de renovação carismática[2]. Em muitas igrejas o dom do Espírito Santo é virtualmente equiparado ao batismo nas águas ou a uma segunda benção.
O BATISMO NAS ÁGUAS – Era praticado no Novo Testamento inicialmente por João Batista, conforme registrado no evangelho de Mateus 3:1-6, como demonstração pública de arrependimento e preparação para a chegada do Reino de Deus, praticado posteriormente pelos discípulos de Jesus (evangelho de João 4:1-2), como uma forma de ingressar na comunidade cristã. No batismo nos identificamos com a morte e com a ressurreição de Cristo. Todas as igrejas cristãs, celebram esse ritual em todo mundo e em todas as épocas, por ser uma das ordenanças conforme registro no evangelho de Mateus, onde Jesus mandou que todo novo discípulo fosse batizado (Mateus 28:18-20).
TERMINOLOGIA – No versículo 4, de Atos 1, da nossa Bíblia, podemos ver que após a ressurreição, Jesus ainda ficou mais quarenta dias com os apóstolos e durante este tempo pediu que eles não deixassem Jerusalém até que “a promessa do Pai” se cumprisse. Esta promessa foi feita ao profeta Joel, como pode ser verificada ao lermos Joel 2:28. Jesus também confirmou a promessa (Lucas 24:49).
O próprio termo “batizado com o Espírito Santo” (Atos 1:5; 11:16) implica numa imersão na vida do Espírito. Atos 1:5 diz: “Porque, na verdade, João batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias. Conforme foi prometido pelo próprio Jesus, neste versículo vemos de forma bem clara que a igreja seria batizada com o Espírito Santo, e essa promessa foi cumprida a partir do dia de Pentecostes.
PODER, OUSADIA E CONFIANÇA – Jesus diz em Atos 1:5 e 1:8 que o batismo com o Espírito significa: “mas recebereis a (virtude) poder… e ser-me-eis testemunhas”. Isso é uma experiência de ousadia, de confiança e de vitória sobre o pecado. Como diz o registro bíblico de 1º Coríntios 12:13 – Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito.
Acredito piamente que um cristão sem poder é um cristão que necessita do batismo com o Espírito Santo. Por isso estou ciente de que em 1º Coríntios 12:13 Paulo diz que batismo com o Espírito é um ato de Deus pelo qual nós nos tornamos parte do corpo de Cristo na conversão, de maneira que em sua terminologia todos os que se converterem genuinamente foram batizados com o Espírito.
Muitos tem cometido injustiça em limitar o entendimento de Paulo com relação ao batismo com o Espírito Santo como se fosse um ato divino, inicial e “subconsciente” na conversão. E certamente no livro de Atos que o batismo com o Espírito Santo é mais que um ato divino subconsciente de regeneração – é uma experiência consciente de poder (Atos 1:8) que dá ousadia ao cristão para testemunhar do evangelho, esse é o objetivo.
O TESTEMUNHO DE ATOS – Uma razão que me faz pensar que isso não é um ato subconsciente é quando, por exemplo, procuramos em todas as passagens no livro de Atos, onde o Espírito Santo trabalha nos cristãos, nunca é de forma subconsciente. Em Atos o Espírito Santo não é uma influência silenciosa, mas uma experimentação de poder. Os cristãos experimentavam o batismo com o Espírito Santo, eles não apenas acreditavam que isso acontecia porque um apóstolo disse que tal coisa aconteceria.
Observando, basicamente o Livro de Atos 1:8, podemos dizer em primeiro lugar que A CAPACITAÇÃO PARA A MISSÃO É OBRA DO ESPÍRITO SANTO: “Recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo” – Esse texto indica que a capacidade para realizar a missão tem origem no Espírito Santo que nos concede poder. Em geral quando pensamos no Espírito Santo logo pensamos em manifestações, sinais e maravilhas. O próprio livro de Atos nos mostra que a obra do Espírito Santo tem relação direta com a missão. Ele se move através de cristãos e igrejas santas e consagradas impulsionando e capacitando para o cumprimento da missão. Ao olharmos para a história dos grandes avivamentos podemos constatar que sempre geraram impulso missionário. Portanto, não há missão sem a obra do Espírito Santo que nos capacita para essa finalidade.
Em segundo lugar, O ALVO DA MISSÃO É SER TESTEMUNHA: “e sereis minhas testemunhas” – Com toda certeza faz parte da nossa missão como cristãos as obras sociais e todas as manifestações de amor. Elas são sinais visíveis da presença do Reino de Deus. Mas, o alvo claro em Atos 1:8 é ser testemunha. O alvo da missão é ser testemunha de Jesus Cristo, é fazer com que nossa vida e ações deponham favoravelmente ao Senhor Jesus. Desta forma nossa vida é um testemunho daquilo que Jesus é e pode fazer na vida daqueles que creem em seu nome.
Em terceiro lugar, A MISSÃO É UM ESTILO DE VIDA: “tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra.” – Quando o texto fala de Jerusalem, Judeia, Samaria e confins da terra, certamente está falando que a nossa missão começa onde estamos e vai progredindo. Assim, esse texto tem sido usado normalmente como ponto de partida para o planejamento missionário. Ao mesmo tempo que é um texto estratégico ele nos mostra que a missão e ser missionário deve ser um estilo de vida. Poderia, assim, estar dizendo que não importa onde você está, mas onde estiver é encorajado a ser testemunha. A igreja cresceu com o movimento de pessoas que iam de um lugar para outro e por onde iam viviam a missão. Isso está claro no livro de Atos e na vida das igrejas.
A CONSEQUÊNCIA DA FÉ – Como cristãos, será que devemos enfatizar a experiência do batismo com o Espírito Santo? Vejam bem, no livro de Atos, os apóstolos ensinam que o batismo é uma conseqüência da fé, não uma causa subconsciente de fé. Como cristão convicto eu creio de todo coração que a graça de Deus precede e capacita a fé salvífica. Nós não iniciamos nossa salvação ao crermos em Deus. Deus é que inicia a salvação nos capacitando a crer (Efésios 2:8-9; 2º Timóteo 2:25; Evangelho de João 1:13). Em Atos 11:15-17, o apóstolo Pedro relata como o Espírito Santo desceu sobre Cornélio assim como nos discípulos em Pentecostes, leiamos: (E, quando comecei a falar, caiu sobre eles o Espírito Santo, como também sobre nós ao princípio.E lembrei-me do dito do Senhor, quando disse: “João certamente batizou com água; mas vós sereis batizados com o Espírito Santo”. Portanto, se Deus lhes deu o mesmo dom que a nós, quando havemos crido no Senhor Jesus Cristo, quem era então eu, para que pudesse resistir a Deus?) Note que o dom do Espírito, ou batismo com o Espírito, é precedido pela fé.
ANALISANDO ATOS 19:2 – Paulo tinha viajado da Galácia para Éfeso e em Éfeso encontrou alguns discípulos que tinham o mesmo conhecimento parcial de Jesus que tivera Apolo. O apóstolo reconheceu que o conhecimento que os discípulos tinham de Jesus era incompleto. Por isso perguntou: “Recebestes, porventura, o Espírito Santo quando crestes?”. Considerando que o Espírito Santo se recebe geralmente quando se crer em Cristo. Sua resposta deve ter sido que eles não sabiam nada sobre a verdade cristã do Espírito Santo, pois qualquer um que conhecesse o Velho Testamento, já teria ouvido a respeito do Espírito Santo. Porém, esses discípulos nada ouviram sobre o Pentecostes. Só conheciam a mensagem de João Batista – que os homens deviam receber um batismo de arrependimento em antecipação à vinda dEle, Jesus. Amados irmãos, isto não descreve um novo Pentecostes, mas uma extensão da experiência do Pentecostes para incluir todos os crentes. Nenhum significado especial deve ser buscado. Esta experiência, como aquela de Pedro e João em Samaria (8:16,17) tem a intenção de demonstrar a unidade da Igreja. Uma vez que os crentes são batizados por um Espírito em um corpo (I Co. 12:13). Eles com certeza eram discípulos de Jesus mas com um conhecimento incompleto do Evangelho.
COM RELAÇÃO AS LÍNGUAS – Outro assunto bastante polêmico e emblemático é sobre o dom de línguas ou o “dom de falar em línguas”, este com certeza é um dom espiritual e significa falar numa língua que não se sabe.
Jesus predisse o falar em línguas: “E estes sinais seguirão aqueles que crêem … falarão novas línguas.”[3] Marcos 16:17. A primeira vez que alguém falou em línguas foi no dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo foi derramado sobre os apóstolos, como relatado em Atos 2:1-12. Os apóstolos falavam do evangelho às multidões em Jerusalém, e o que eles disseram, foram compreendidos por pessoas que falavam muitas línguas diferentes: “… os ouvimos falar em nossas línguas as maravilhas de Deus”. Atos 2:11.
O PROPÓSITO DESTE DOM. O dom de falar em línguas era um dos dons dado aos cristãos para ajudar na edificação do corpo de Cristo, que é a Igreja. Os sinais e milagres, entre os quais o falar em línguas ocupavam um lugar determinado, atestavam a pregação da nova mensagem e removiam qualquer pretexto para a incredulidade do ouvinte. Temos também de levar em consideração que a mensagem da graça de Deus em Cristo Jesus não somente era nova como também ninguém escrevera uma linha sequer do Novo Testamento, ou seja, tudo repousava unicamente na Palavra falada. Essa era a razão porque Deus confirmava a Palavra anunciada oralmente com sinais. Se algo não fosse coerente com a Palavra, se não fosse a pura doutrina de Cristo, então não poderia haver tais sinais.
Falar em línguas em si pode beneficiar uma pessoa. No texto de 1º Coríntios 14:4, Paulo declara: “Aquele que fala em língua edifica a si mesmo”. Paulo estava dizendo que, uma pessoa estrangeira que participava do culto em Corinto e que conhecia apenas um idioma, não compreenderia a mensagem caso alguém usasse o dom de línguas para falar um idioma totalmente diferente do dela. Porém, o apóstolo Paulo deixa bem claro que a melhor maneira de edificar a igreja é falar profeticamente, utilizando palavras “simples” da língua nativa dos ouvintes que constroem a fé e compreensão para todos os que ouvem a mensagem. Veja o que o apóstolo diz: “Dou graças a Deus que falo em línguas mais do que todos; Ainda na igreja prefiro falar cinco palavras com o meu entendimento, para que eu possa também instruir os outros, do que dez mil palavras em língua“. (1º Coríntios 14:18-19).
Quando o Espírito Santo foi derramado sobre os discípulos de Jesus, conforme relato do Livro de Atos 2, os discípulos estavam prontos para testemunhar do evangelho da Graça a todos os povos da terra. Naquele momento, não se tratava de um sinal para o mundo descrente pagão e sim para o povo judeu. Mais tarde, quando o apóstolo Pedro dirige a Palavra e anuncia o evangelho três mil pessoas se convertem, tocadas não pelo falar em línguas, mas pela pregação do evangelho. Foi estritamente necessário haver a compreensão de quem fala como de quem houve, para que o objetivo final – a proclamação do evangelho – fosse alcançado e uma decisão por parte do ouvinte, pudesse ser tomada.
A Finalidade do falar em línguas para os discípulos de Cristo era dupla. Em primeiro lugar, servia para chamar a atenção dos judeus e levá-los a fazer perguntas. Em segundo lugar, havia a necessidade dos discípulos serem preparados para essa nova situação: Deus a partir daquele momento seria louvado e glorificado não somente na língua santa – o hebraico – mas também nas línguas de todas as nações.
Tal como acontece com todos os dons do Espírito, o falar em línguas não é necessariamente um sinal de maturidade espiritual. Muitos dos Corintos falaram em línguas, mas Paulo afirma que eles foram “meninos em Cristo”, ou seja, pessoas sem maturidade no uso dos dons. No entanto, quando os dons são utilizados de uma forma ordenada e apropriada, ou seja, com maturidade, eles podem ser usados para construir o indivíduo e os outros membros do corpo de Cristo, pois esta é a finalidade última dos dons espirituais, entre eles o falar em outras línguas.
POR QUE PRECISAMOS DO BATISMO DO ESPÍRITO SANTO? – O apóstolo Paulo exorta aqueles que receberam o Espírito Santo, devem andar no espírito, e se o fizerem, não cumprirão as concupiscências[4] da carne. Em outras palavras, quem recebeu o Espírito Santo deve andar Nele. Precisamos do Batismo do Espírito Santo, para nos santificar e pregar a Palavra de Deus, com ousadia e coragem. Conforme o evangelho de João 16:13 – “Quando vier, porém, aquele Espírito da Verdade, ele vos guiará em toda a Verdade.” Esse é o motivo de recebermos o Espírito Santo no momento de nossa conversão. Precisamos do Espírito Santo para dar fruto. Se não tivermos o Espírito Santo, não conseguiremos realizar a vontade de Deus.
CONCLUSÃO
Na Bíblia, encontramos vários relatos de pessoas que receberam o Espírito Santo e não falaram em línguas. Porque? Porque não era necessário. Veja alguns exemplos: (Lucas 1:15 e 41, Lucas 1:35; Lucas 1:67; Lucas 3:22; Atos 6:1-7; Atos 6:5, Atos 8:17). Alguém já viu alguma passagem que mostra Jesus falando em línguas estranhas? Não! Ele até poderia se quisesse, mas não houve necessidade, e nem mesmo Ele quis gloriar-se em si mesmo.
Uma verdadeira obra do Espírito Santo, aumenta o amor das pessoas a Deus e aos outros, não cria conflitos de poder e nem divide pensamentos e igrejas. Muitos cultos, onde há o “batismo com o espírito santo”, são caracterizados pela desordem, pelo caos ou pelos fenômenos irracionais de êxtase. Esse tipo de comportamento estranho, é contrário a adoração bíblica.
Se alguém nos dias atuais fala em línguas, como saber ou avaliar o que a pessoa está expressando? Estaria essa pessoa sendo guiada pelo Espírito Santo ou por espíritos enganadores? Por essa razão é importante que haja um intérprete, para que se torne compreensível o que está sendo comunicado. Na 1ª carta do apóstolo Paulo aos Tessalonicenses 5:20-22, o apóstolo diz o seguinte: “Não desprezeis as profecias. Examinai tudo. Retende o bem. Abstende-vos de toda a aparência do mal.” Lembrando que o dom de profecia é a habilidade concedida pelo Espírito Santo de proclamar a verdade revelada de Deus, pois esta verdade reflete o caráter do próprio Deus. Em sua viagem para Bereia, Paulo observou que os bereanos não aceitaram automaticamente o seu ensino, antes buscaram o significado correto das palavras ditas pelo apóstolo, confrontando-as com as revelações no Antigo Testamento. Veja o que diz Atos 17:11 – Ora, estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim.
Onde o Espírito Santo se manifesta, Ele não produz shows estúpidos de pessoas que se jogam no chão, totalmente fora de controle racional, demonstrando um emocionalismo desenfreado, essas são atitudes que expressam a paranoia e a loucura do ser humano em querer ser igual a animais irracionais e não a vontade de Deus. Onde o Espírito Santo se manifesta, os pecadores são santificados pelo poder da sua Palavra, sendo transformados em novas criaturas. Pessoas são capacitadas para o serviço, fortalecidas pela obra e ansiosas para aprenderem cada vez mais a Palavra de Deus.
A Bíblia é o livro santo e não contém erros. E ela registra que é o Espírito Santo que convence os incrédulos, do pecado, da justiça e do juízo (Evangelho de João 16:8). A Bíblia é a espada pela qual o evangelho anunciado, é penetrado no coração das pessoas espiritualmente mortas, erguendo-as para a nova vida em Cristo. Tudo isso é atestado pelo Espírito Santo.
O verdadeiro amor a Deus, se expressa em uma vida de obediência abnegada, de um culto sóbrio, racional e sacrifical a Deus (Romanos 12:1), que consiste em apresentar o nosso corpo como “sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”.
Qualquer coisa de valor eterno nesta vida e na eternidade vem através do trabalho do Espírito Santo em nossas vidas. Se queremos seguir a Jesus e ver que precisamos de ajuda para fazê-lo, Deus nos dá o Seu Espírito Santo. Quando nos tornamos discípulos e recebemos o Espírito Santo, Ele inicia uma obra em nós, para nos transformar na imagem de Cristo. Vamos nos humilhar profundamente sob a mão poderosa de Deus, através da liderança de Seu Espírito, de modo que a graça venha sobre nós, para que realmente cheguemos a essa plenitude. Assim, façamos como Paulo exortou Timóteo, medite sobre estas coisas, entregue-se inteiramente a elas, para que nosso progresso seja evidente para todos. (1º Timóteo 4:15).
[1] Realidade doutrinária – realidade ensinada.
[2] É um movimento surgido nos Estados Unidos em meados da década de 1960 e espalhado por todo o mundo. Há uma ênfase especial na ação do “Espírito Santo”. Ele também concede dons aos Cristãos tais como os dons de profecia, línguas, discernimento, sabedoria, cura, fé, milagres, e ciência.
[3] Conforme o evangelho de Marcos 16:17-18 – Os sinais são: expulsar demônios, falar novas línguas, pegar em serpentes, beber algo mortífero sem sofrer dano e impor as mãos sobre os enfermos e curá-los.
[4] Concupiscência – cobiça de bens materiais ou prazeres sexuais.
Pr. Dr. Gervásio Melquiades Gomes

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