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Consumir bebida alcoólica é pecado?

Pr. Dr. Gervásio Melquiades Gomes

Alguns assuntos têm gerado um debate bem acalorado entre os cristãos, principalmente os que tratam sobre a moralidade do consumo de álcool.

Certamente há muitas evidências quanto ao abuso descontrolado de bebidas alcoólicas. Além disso, a Bíblia condena claramente todas as formas de abuso de álcool, seja através de ordens expressas, seja por exemplos notórios. Contudo a questão ética que está perante nós é: A Bíblia permite o consumo de bebida alcoólica ou não? A questão fundamental é de ordem ética, não cultural ou geográfica; essa questão requer uma resposta com base bíblica, não emocional.

TRÊS PONTOS DE VISTA

Entre os evangélicos, as abordagens fundamentais a respeito do álcool podem ser destiladas (sem trocadilhos) em três pontos de vista básicos:

(1) Com relação as pessoas que proíbem e que não toleram de forma alguma o consumo de bebida alcoólica. Aqueles que aderem a esta posição não encontram nenhuma autorização da Escritura para o consumo de álcool, mesmo no período bíblico. Os termos mais importantes empregados na Escritura são yayin[1] e shekar[2] (hebraico) e oinos[3] (grego).

(1) Com relação as pessoas que proíbem e que não toleram de forma alguma o consumo de bebida alcoólica. Aqueles que aderem a esta posição não encontram nenhuma autorização da Escritura para o consumo de álcool, mesmo no período bíblico. Os termos mais importantes empregados na Escritura são yayin[1] e shekar[2] (hebraico) e oinos[3] (grego).

(2) Com aos que se abstém da bebida alcoólica, e que desencorajam o uso do álcool em nosso contexto moderno, embora conheçam que ele era usado no período bíblico. Eles apontam a diferença cultural moderna como justificativa para sua distinção: a difusão do alcoolismo (que chega a ser um problema social contemporâneo), bebidas com maior teor alcoólico (desconhecidas nos tempos bíblicos), e a intensificação dos perigos em uma sociedade tecnológica (bebida e direção), tem causado muitos males e chega a ser uma das grandes causas da mortandade da nossa nação.

(3) Com relação aos moderados, que defendem uma permissão para o consumo moderado de bebidas alcoólicas. Essa posição, ao reconhecer, lamentar, e condenar todas as formas de abuso e dependência alcoólica, argumenta que as Escrituras permitem o desfrute de bebidas alcoólicas com discernimento e moderação.

A IMPORTÂNCIA DA QUESTÃO

O álcool é uma droga subestimada, pois, nossa cultura vê o mesmo como parte integrante de uma vida normal. Nos finais de semana, esportes, viagens, bares, diante da TV, festas, etc.

Porém, essa droga tem causado vários danos à integridade física e psicológica: Cáries dentária, gengivites, mal hálito, esofagites, varizes esofágicas, gastrites aguda e crônica, úlceras de estômago e duodeno, problemas pancreáticos, hepatite alcoólica, hipertensão arterial, danifica o funcionamento do cérebro, e, finalmente, cirrose hepática (na qual o fígado diminui de tamanho dando espaço ao crescimento fibroso neste órgão e desde então cerca das 200 funções do fígado ficam seriamente comprometidas). O alcoolismo geralmente se instala sutilmente (fazendo jus ao seu significado), e a tolerância física induz a um aumento na dose ingerida, pouco depois a velha história se repete “um abismo chama outro abismo“, isto é, “uma dose chama outra dose“, e as marcas danosas desse vício se instalam no indivíduo dominando todo o seu ser, os acidentes de automóvel, desemprego, miséria, doenças, destruição da família, perda de memória, traições, imoralidades, crimes e outras tantas desordens sociais, acontecem muitas vezes, por causa do vício da bebida alcoólica.

Frequentemente, a argumentação contra o consumo de bebidas alcoólicas de forma inadvertida e negativa tem afetado certos aspectos da fé cristã. Ela pode abalar a autoridade da Escritura (através da condenação universal de algo que a Bíblia permite, a autoridade da própria Bíblia é diminuída no pensamento cristão). Isso pode distorcer a doutrina de Cristo (pois a censura universal de algo que o próprio Jesus praticou detrata Sua santidade). E isto afeta negativamente nossa defesa da fé (pois ao negar algo que a Escritura permite tornamos nosso testemunho inconsistente).

Minha abordagem neste tema envolve três pressuposições: (1) A Bíblia é a inerrante Palavra de Deus; (2) A Bíblia é o padrão determinador e final de toda questão ética; e (3) A Bíblia condena todas as formas de abuso e dependência alcoólica.

No meu ponto de vista, o uso moderado de forma alguma compromete qualquer destas três considerações fundamentais, mesmo assim, em determinados lugares, os cristãos, por conta de algumas culturas e por amor aos irmãos, devem limitar suas liberdades, para não serem motivos de escândalos.

O VINHO NA BÍBLIA

Sem dúvida, o ponto de partida de qualquer discussão racional do assunto deve estar na natureza do vinho na Escritura. A posição moderada diz que o vinho permitido para consumo e uso prudente pelo povo de Deus na Bíblia era de qualidade fermentada, uma bebida de conteúdo alcoólico. As traduções incluem “vinho”, “licor” “bebida” e “bebida forte”. Além disso, em várias passagens, diz-se que o “vinho”, “licor” “bebida” e “bebida forte”, “alegra o coração”. Isto seguramente faz referência ao efeito da bebida alcoólica, quando usada moderadamente.

Cabe a liderança da igreja o discernimento do assunto: Em algumas ocasiões, cristãos “fortes” são instruídos a abandonar o uso do vinho (Romanos 14:21), quando houver uma séria probabilidade de “fazer tropeçar” (Romanos 14:15) um “irmão fraco” (Romanos 14:1; 15:1). Isto certamente indica o abandono provisório de uma bebida alcoólica. Esta decisão é tomada por amor ao próximo, porque o próprio Cristo não agradou a si mesmo.

É interessante notar que não há nenhuma distinção bíblica para vinhos “sãos”. A Escritura não tem uma só recomendação de “vinho novo” (suco fresco de uva) que sobreponha ou substitua o “vinho velho” (bebida fermentada). A Escritura não tem qualquer recomendação de vinho diluído em lugar do vinho puro (ela nem mesmo elogia o vinho misturado, Isaías 1:22). A Escritura não traz qualquer encorajamento a se evitar a fermentação, que ocorre naturalmente. Existem evidências de que o vinho era intencionalmente manejado com o fim de acelerar o processo de fermentação (Isaías 25:6; Jeremias 48:11).

USO DO VINHO NA BÍBLIA

Tendo demonstrado a qualidade fermentada (e consequentemente o potencial inebriante) do vinho da Bíblia, irei agora separar algumas evidências bíblicas de seu uso correto.

1. Exemplo prudente: Em Gênesis 14:18 Melquisedeque deu yayin a Abraão em um contexto correto. Não há nenhuma evidência de qualquer desaprovação divina a este episódio. (Ver também Neemias 5:16-19).

2. Uso na adoração: A Escritura ensina que tanto yayin (Êxodo 29:38) como shekar (Números 28:7) foram usados como oferenda a Deus. Isso é importante por duas razões: (1) essas bebidas (alcoólicas) haviam sido produzidas para adoração, e (2) elas eram oferendas aceitáveis a Deus. Se bebidas alcoólicas fossem impróprias para o consumo humano, por que seriam aceitáveis no culto divino?

3. Benção positiva: A lei de Deus permitia que yayin e shekar fossem adquiridos com a função de trazer alegria e para serem bebidas perante o Senhor. “Esse dinheiro, dá-lo-ás por tudo o que deseja a tua alma, por vacas, ou ovelhas, ou vinho [ yayin ] ou bebida forte [ shekar ], ou qualquer coisa que te pedir a tua alma; come-o ali perante o Senhor, teu Deus, e te alegrarás, tu e a tua casa” (Deuteronômio 14:26).

De fato, o salmista atribui a Deus a produção de yayin , o qual alegra o coração do homem (Salmos 104:14-15). Certamente a provisão de Deus tem em vista um emprego justo da bebida alcoólica. Além disso, a Escritura fala da satisfação da vida em termos de comer do pão e beber do yayin com alegria (Eclesiastes 9:7).

4. Simbolismo espiritual: O rico simbolismo da revelação da redenção de Deus realça o uso de bebidas fermentadas. As bênçãos da salvação são comparadas à livre provisão de yayin: “Ah! Todos vós, os que tendes sede, vinde às águas; e vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite” (Isaías 55:1).

As bênçãos do reino são simbolizadas pela provisão abundante de yayin: “Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que o que lavra segue logo ao que ceifa, e o que pisa as uvas, ao que lança a semente; os montes destilarão mosto, e todos os outeiros se derreterão. Mudarei a sorte do meu povo de Israel….plantarão vinhas e beberão o seu vinho” (Amós 9:13-14).

Em outra parte, lemos: “O Senhor dos Exércitos dará neste monte a todos os povos um banquete de coisas gordurosas, uma festa com vinhos velhos, pratos gordurosos com tutanos e vinhos velhos bem clarificados” (Isaías 25:6). Claramente, vinho — incluindo o vinho meticulosamente envelhecido — é visto como um símbolo das bênçãos de Deus.

5. Testemunho de Cristo: É interessante perceber que nosso Senhor Jesus, milagrosamente “fabricou” uma quantidade abundante de vinho (João 2:6) para uma festa de casamento. Esse vinho foi considerado “muito bom” pelo mestre-sala.

(João 2:10) — e os homens preferiam o “vinho velho”, ou seja, o antigo e fermentado, porque ele era bom (Lucas 5:39).

6. Ausência de proibição: Em lugar algum a Escritura dá uma ordem universal como: “Não bebam vinho de modo algum. De fato, os grupos seletos que abandonam o vinho são dignos de menção por agirem de forma diferente ao costume dos tempos bíblicos, como, por exemplo, os Nazireus (Números 6:2-6) e João Batista (Lucas 1:15). Outros são proibidos de ingerir vinho somente durante o exercício formal de seus deveres específicos, a exemplo dos sacerdotes (Levítico 10:8-11) e dos reis (Provérbios 31:4-5).

Todas as proibições quanto ao consumo de vinho envolvem proibições com relação ao abuso, por exemplo: Não vos embriagueis com vinho (Efésios 5:18). Não esteja entre os bebedores de vinho (Provérbios. 23:20). Não seja inclinado a muito vinho (1º Timóteo. 3:8; Tito 2:3). Não se demore em beber vinho (Provérbio 23:30).

CONCLUSÃO E RECOMENDAÇÕES

Em um tempo em que tudo é dito e feito, devemos saber distinguir o uso do vinho ao de outra bebida e principalmente, condenar o seu abuso. Algumas vezes na Bíblia comer como um glutão é posto em paralelo com beber vinho de forma imoderada (Deuteronômio 21:20); Provérbios 23:21). Mas o alimento não é universalmente proibido. Algumas vezes na Escritura a perversão sexual é posta em paralelo com a embriaguez (Romanos 13:13; 1ª Pedro 4:3). Mas nem todas as formas de atividade sexual são proibidas! A riqueza frequentemente se transforma num laço para o pecador (1º Timóteo 6:9-11), mas a Escritura não desencoraja totalmente sua aquisição (Jó 42:10-17)! Deus pretende que cada uma destas vertentes da vida seja uma benção para o homem, quando usadas de acordo com Sua justa Lei.

Parece-me suficientemente claro, que as Escrituras permitem o consumo moderado de bebidas alcoólicas. A Bíblia não hesita em recomendar o vinho, nem se constrange em retratar seu consumo entre os justos dos tempos bíblicos. O vinho é dado aos santos como uma benção e alegria (Deuteronômio 14:26; Salmos; 104:14-15), ainda que para o imoderado e o perverso ele possa vir a ser escárnio e maldição (Provérbios 20:1; 23:29-35).

Não é de hoje que o uso do álcool divide opiniões e gera grandes debates no meio cristão. Mesmo que a Bíblia não traga nenhuma proibição explícita quanto ao consumo de bebidas alcoólicas, o uso pode ser pecado. “Pecado é tudo aquilo que nos afasta do Senhor ou tenta roubar o lugar d’Ele no nosso coração e o entristece”. Além do mais, algo que pode trazer malefícios para a saúde do nosso corpo, que é templo do Espírito Santo, deve ser evitado.

O vinho é uma bebida alcoólica assim como a cerveja. “Eu acredito, que o beber ou não, depende de uma decisão pessoal. No capítulo 14 do livro de Romanos, o apóstolo Paulo trata justamente desse tipo de situação, sobre os tipos de comida ou bebida que um cristão pode comer e beber. Ele destaca que o importante é fazermos tudo com segurança com o intuito de glorificar ao Senhor, porque o Reino de Deus é maior do que comida ou bebida. No versículo 22, ele ainda declara: “Bem-aventurado aquele que não se condena a si mesmo naquilo que aprova.

“O problema não é a bebida em si, mas o que ela pode causar quando em excesso. Beber numa roda de amigos pode prover o encorajamento para que a pessoa ultrapasse o limite e se embriague. Por isso, não recomendo tal prática. Mas beber eventualmente, seja em casa com a família, seja numa celebração, não há razão para se privar, a menos que a pessoa já tenha tido um histórico de alcoolismo. Devemos vigiar sempre, porque a carne é fraca.

Se o consumo de bebida alcoólica vai gerar mau testemunho, se está gerando problemas de vício ou de consciência para uma pessoa, creio que se torna pecado e deve ser abandonado”.

“Não podemos usar da nossa liberdade para ferir a consciência daqueles que não conseguem entender. A Palavra de Deus nos exorta a não sermos cheios de vinho e sim do Espírito Santo, então está claro que o perigo decorre de uma vida sem autocontrole. Não existe nenhum texto que proíba o uso de bebidas alcoólicas, apenas recomendações para que não existam excessos e para que a nossa liberdade não se torne pedra de tropeço para os fracos na fé”. Em Levítico 10.8-10, a Palavra de Deus proíbe os sacerdotes de beberem vinho e bebida fermentada, durante a adoração. “Além desse texto, a Palavra faz várias referências quantos aos riscos do consumo de bebida alcoólica. “Se o Senhor não está presente onde eu estiver, eu também não posso estar ali, independente do que será servido ou de que se fará no local”.


[1]     yayin – Termo hebraico, significa vinho (fermentado).

[2]     Shekar – Termo  hebraico, significa “bebida forte”

[3]     Oinos – Termo grego, significa “vinho novo” ou “vinho em processo de fermentação”

Pr. Dr.Gervásio Melquiades Gomes

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