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Qual o Significado da Oração do Pai Nosso?

Pr. Dr. Gervásio Melquiades Gomes

A oração do Pai Nosso é conhecida em várias religiões como a “oração das orações”, ou “a melhor das orações”, ensinada por Jesus Cristo aos discípulos e que chegou até nós pelos nossos pais e também pela própria Palavra de Deus. Ela nos faz entrar em comunhão com Deus Pai, Criador de todas as coisas, e também nos ajuda a viver bem com os outros e consigo mesmo, dando-nos também a menção da salvação em Deus. As duas dimensões devem andar juntas para que seja verdadeira a oração: a vertical e a horizontal. Na dimensão vertical Jesus é o modelo de oração na qual ensinou a sua forma de conversar com Deus Pai chamando-o de Pai Nosso, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso Reino, de paz, de justiça e de amor, seja feita a vossa Vontade tanto na terra como céus.

Na dimensão horizontal na qual pedimos o pão nosso de cada dia nos dai hoje, o pão para nós e para todos, perdoa a nossas ofensas, nas quais necessitamos do perdão do Senhor, porque somos todos pecadores, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido, para que a gente possa perdoar com alegria e com amor, e não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal, da dimensão da condenação, mas que tenhamos a vida eterna, a vida com Deus. Somos convidados a orar sempre, em família, na comunidade e na sociedade porque trata-se de um programa de vida rumo à santidade de todos os que creram em Jesus como Senhor e Salvador.

Tertuliano, padre africano do século III afirmava que quando dizemos Pai Nosso que estais nos céus (Mateus 6:9) confessamos Deus e exprimimos nossa fé nele. Cipriano, Bispo e mártir do século III, também do Norte Africano dizia que a oração do Pai Nosso contém muitas riquezas e mistérios, breves nas palavras, mas amplas no espírito do seu poder. Dizemos Pai e por isso somos filhos. A oração do Pai Nosso estimula-nos a viver o amor a Deus, ao próximo como a si mesmo.

Para muitos, a oração do Pai nosso ensinada por Jesus, não passa de um mantra que é repetido quase sem pensar, como se algum poder existisse em uma simples repetição. Mas sabemos que esse modelo de oração ensinado por Jesus não é para ser meramente repetido, mas entendido de uma forma profunda. Devemos saber por que estamos orando. Devemos saber o que Deus quis comunicar com esse modelo simples e profundo de oração. Devemos compreender essa oração, devemos entender o que o Pai nosso deseja de nós, como Ele deseja que nos portemos e como nos apresentemos perante ele.

A oração do Pai Nosso é um modelo de oração ensinado por Jesus Cristo aos seus seguidores durante o Sermão da Montanha. A oração do Pai Nosso também é chamada de Oração Dominical, e está registrada na Bíblia em Mateus 6:9-13. O significado dessa oração reúne adoração, petição e confissão de pecados.

Em determinado momento da vida pública de Jesus, os discípulos haviam recolhidos doze cestos cheios de sobras de alimento, após uma refeição miraculosa, onde Jesus alimentou cinco mil pessoas, com o lanche de um garoto, eles também viram cegos, epiléticos e leprosos, serem curados com apenas uma palavra de Jesus, entre tantos outros milagres que. Em um momento especial, eles viram e ouviram as palavras de Jesus no evangelho de João 14:12, que disse a eles:  “em verdade, em verdade vos digo, aquele que crê em mim, fará também as obras que eu faço e outras maiores fará, porque eu vou para junto do Pai.” A pergunta é: SERÁ QUE ELES PODIAM POSSUIR AQUELE PODER? QUAL SERIA O SEGREDO DE TANTO PODER?

Certo dia, a solução revelou-se aos discípulos. Havia uma chave especial que abria as portas do céu e derramava o poder do alto. Ao observar Jesus orar imediatamente foram ter com Jesus e lhe pediram: Senhor ensina-nos a orar (Lucas 11:1).Aprender a orar era o segredo, o único segredo que eles precisavam saber.

Hoje, mais de quinhentos milhões de pessoas conhecem essas palavras de cor, mas são muito poucos, os que realmente sabem dizê-las como oração. O poder não está em repetir as palavras, mas em se fazer a oração.

O QUE É A ORAÇÃO?

Orar não é simplesmente recitar algumas palavras. Orar é como se pensasse em um grande edifício. As palavras são apenas a armação do concreto, sobre a qual o pesamento é edificado, ou seja, o poder do Pai nosso, não reside nas palavras, mas, na configuração mental que as palavras geram em nós. A Bíblia nos ensina em Romanos 12:2 – “Mas transformai-vos pela renovação da vossa mente…”. Quando nossos pensamentos começam a fluir através dos canais da oração, nossa mente se renova e nós somos transformados. Infelizmente, muitas vezes fracassamos em nossas devoções ou meditações, por conta dos nossos atos ou porque nossas orações são palavras sem sentido. COMO SERÁ QUE VOCÊ TEM ORADO?

Certa vez um pensador cristão disse: Enquanto o homem não encontra Deus, ele fica perdido, é como se ele trabalhasse sem finalidade. Assim ninguém está preparado para orar, enquanto não estiver totalmente tomado por pensamentos a respeito de Deus. Quando nos ajoelhamos para orar, nossa mente tem que estar condicionada na direção certa, todo o nosso pensamento tem de estar relacionado com o Senhor. Nossas palavras devem expressar exatamente nossos pensamentos e os desejos dos nossos corações, colocando sempre Deus em 1º lugar.

Certa vez Moisés estava no monte cuidando do rebanho, de repente ele viu um arbusto pegando fogo, contudo, o fogo não o consumia. Depois ele se aproximou para ver o que era. Era o Senhor que se encontrava naquela planta, desejando revelar a Moisés a sua vontade para a vida dele. Porém, quando Moisés se aproximou, ouviu uma voz que disse: “Tira as sandálias do teus pés porque o lugar em que estás é terra santa” (Êxodo 3:5).Isto significa que antes de Deus falar com o ser humano, este tem de mostrar reverência e respeito.

Muitas pessoas só se lembram de orar em casos de extrema necessidade, isto é, quando tem problemas que não conseguem resolver por si mesmos. São orações que se centralizam nelas e naquilo que elas querem de Deus, é por isso que são poucas as pessoas que realmente oram com poder. Pois Deus usa as nossas orações para realizar milagres, para transformar vidas, para libertar pessoas da opressão do maligno, Deus usa nossas orações para nos fortalecer diante das dificuldades, Deus usa nossas orações para que casamentos sejam restaurados, para que famílias sejam restauradas, porém, Jesus nos ensina que temos que ser justos e colocar Deus e a sua vontade em primeiro lugar (Mateus 6:33).

Quando nossa mente está inteiramente tomada por Deus, os pecados que nos assediam perdem o domínio sobre nós e nós nos tornamos mais prontos a ouvi-lo e a obedecê-lo. Esta é uma condição que nós precisamos preencher se quisermos orar com poder.

Um dado bastante interessante é: porque fechamos os olhos para orar? Talvez seja reverência ou para afastarmos de nossas mentes o mundo exterior, a fim de darmos toda a nossa atenção a Deus. Todavia a verdadeira oração tem a finalidade de abrir os nossos olhos.

DIFERENÇA DA ORAÇÃO EM MATEUS E EM LUCAS

Em Lucas 11:2-4 também há uma forma de oração que difere levemente daquela registrada no capítulo 6 de Mateus. No Evangelho de Lucas Jesus indica um modelo de oração ao responder um pedido de seus discípulos que queriam aprender a como orar. Já a oração do Pai Nosso registrada por Mateus foi ensinada por Jesus durante um sermão.

Antes de ensinar a oração do Pai Nosso, o texto bíblico mostra que Jesus exorta seus ouvintes sobre qual deve ser a atitude correta ao orar. Ele diz que seus seguidores não devem agir como os hipócritas que buscam apenas o reconhecimento humano durante as suas orações. Jesus também condena a prática de vãs repetições que era um comportamento comum entre os gentios em seus cultos pagãos. Então Ele ensina que seus seguidores devem orar ao Pai confiando em sua soberania sobre todas as coisas e com a certeza de que Ele ouve as orações de seus filhos (Mateus 6:5-8).

A oração do Pai Nosso pode ser dividida em duas partes. A primeira parte traz três sentenças que de forma geral dizem respeito à glória de Deus. São elas: “santificado seja o teu nome; venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”. Já a segunda parte traz três petições que dizem respeito a nossa vida e que implicam em provisão, perdão e proteção. São elas: “o pão nosso de cada dia nos dá hoje; perdoa-nos as nossas dividas, assim como nós perdoamos os nossos devedores; e não nos deixe cair em tentação, mas livra-nos do mal”.

PAI NOSSO QUE ESTÁS NOS CÉUS

A palavra traduzida como “Pai” corresponde à palavra aramaica Abba que era uma forma comum de um filho se dirigir ao seu pai com carinho. Então é muito significativo o fato de Jesus ensinar que devemos nos dirigir a Deus como Pai. Isso porque, por natureza, nós não somos filhos de Deus. A Bíblia diz que o homem caído é, na verdade, filho da ira (Efésios 2:1-4). Mas Deus nos adotou em Cristo Jesus. Isso significa que pelos méritos de Cristo nós fomos adotados como filhos por Deus, e recebidos como herdeiros em sua família.

O “Pai nosso”, indica que somos elos duma corrente de incontáveis filhos e filhas de Deus que realizaram esta oração através dos séculos, por todos os cantos da terra, a começar com os próprios discípulos de Jesus. Essa oração, liga-nos com nosso vizinho doente, com os irmãos na comunidade, mesmo com irmãos e irmãs difíceis, liga-nos até com os que vivem além dos muros de nossa igreja. Assim nos conscientizamos que a oração de Jesus nos livra de nossa solidão, nos posiciona e nos define como membros do corpo de Cristo.

SANTIFICADO SEJA O SEU NOME

A frase “santificado seja o teu nome” essencialmente expressa uma preocupação com a glória de Deus. Os filhos de Deus adotados em Cristo entendem que a finalidade última de todas as coisas é a glória de Deus; é a santificação de seu sublime nome.

Nos tempos antigos os nomes não eram apenas títulos que distinguiam uma pessoa de outra. Na verdade os nomes eram considerados uma expressão da natureza da própria pessoa. Então quando pedimos ao nosso Pai que seu nome seja santificado, estamos dizendo que nosso desejo principal nesta vida é que Deus seja reverenciado acima de tudo e de todos.

VENHA O TEU REINO

A principal mensagem de Jesus, foi a pregação da chegada do reino, então, o desejo do Senhor é que o Reino de Deus seja estabelecido cada vez mais neste mundo. Quando oramos pedindo que o Reino de Deus venha, estamos reconhecendo o domínio de Deus e almejando que esse reconhecimento também alcance todas as partes desta terra.

Sabemos que o Reino de Deus já está presente. Jesus disse: “É chegado o Reino de Deus(Mateus 4:17). Mas também sabemos que esse reino ainda não veio em toda sua plenitude. Ele virá quando Cristo voltar mais uma vez. Então ao dizermos “venha o teu Reino”, estamos pedindo pela manifestação plena e final da obra de Deus na História; estamos pedindo pela expansão do Evangelho; estamos pedindo pelo retorno de Jesus Cristo; e estamos pedindo pela consumação de todas as coisas para que possamos tão logo viver ao lado de Deus no novo céu e na nova terra.

SEJA FEITA A TUA VONTADE ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU

Essa terceira petição relacionada a Deus é a conseqüência natural das duas primeiras. Se entendemos que a glória de Deus é o que realmente é importante e que seu santo nome deve ser reverenciado; e se entendemos a importância que há na expansão do Reino de Deus nesta terra, então também entendemos que tudo deve estar submetido à vontade de Deus.

É a vontade de Deus que deve prevalecer, não a nossa, pois o Senhor sabe o que é melhor para nós e o que precisamos. A consciência dessa verdade bíblica deve moldar o nosso relacionamento com Deus. Antes de pedirmos qualquer coisa a Deus, devemos nos lembrar que é a vontade d’Ele que deve ser feita e honrada. Então as nossas petições devem passar, primeiro, por esse filtro.

Perceba que Jesus diz “seja feita a tua vontade, assim na terá como no céu”. No céu a vontade de Deus é obedecida plenamente. Mas na terra, por causa do pecado, os homens transgridem a Lei de Deus; eles não andam segundo a vontade do Senhor. Porém, quando oramos para que a vontade de Deus seja feita na terra assim como é feita no céu, estamos pedindo a Deus que seus planos e seus propósitos sejam completamente cumpridos, e que Ele seja obedecido, reverenciado e glorificado na terra assim como Ele é no céu.

O PÃO NOSSO DE CADA DIA NOS DÁ HOJE

Perceba que somente depois de orarmos pela santificação do nome de Deus, pelo Reino de Deus e pelo cumprimento da vontade de Deus, é que devemos orar pelas nossas necessidades diárias. O “pão nosso” a que Jesus se refere nessa oração diz respeito justamente àquilo que é essencial para nossa sobrevivência física.

Então quando oramos “o pão nosso de cada dia nos dá hoje” estamos pedindo a Deus que Ele derrame de sua provisão sobre nós para que possamos ter o necessário para sobrevivermos diariamente neste mundo.

PERDOA AS NOSSAS DIVIDAS, ASSIM COMO PERDOAMOS OS NOSSOS DEVEDORES

As dividas que pedimos para que Deus perdoe não são dividas terrenas, mas dívidas espirituais. Essa parte da oração do Pai Nosso é uma confissão de nossos pecados. Apesar de termos sido redimidos, justificados e regenerados, enquanto estivermos nesta terra ainda estamos sujeitos ao pecado (1ª Carta de João 1:10).

Mas há algo importante aqui. Jesus diz que devemos pedir que Deus perdoe nossas dividas assim como nós também perdoamos os nossos devedores. Na Parábola do Credor Incompassivo Jesus ensina que nós perdoamos porque fomos perdoados (Mateus 18:23-35). Se não perdoamos aqueles que nos ofendem, como poderemos clamar pelo perdão do Pai? Além disso, o perdão que dispensamos aos outros nas palavras de Jesus é uma evidência de que também somos perdoados por Deus (Mateus 6:14,15). Pedir perdão e perdoar deve fazer parte da vida dos filhos de Deus.

NÃO NOS DEIXE CAIR EM TENTAÇÃO, MAS LIVRA-NOS DO MAL

A última petição refere-se à proteção de Deus contra os perigos do pecado. O crente que está comprometido com a glória de Deus, com o Reino de Deus e com a vontade de Deus, também se preocupa em não pecar contra Deus. Quando oramos para que Deus não nos deixe cair em tentação, mas que nos livre do mal, basicamente estamos confessando que o alvo de nossa confiança para que possamos andar em santidade é Deus, e não as nossas próprias forças.

POIS TEU É O REINO, O PODER E A GLÓRIA PARA SEMPRE. AMÉM!

Essa frase final está presente na maioria dos manuscritos do Novo Testamento, mas por outro lado está ausente nos principais manuscritos mais antigos. Por esse motivo ela aparece nas traduções da Bíblia sempre com alguma sinalização.

Mas é inegável que essa frase, que basicamente é uma doxologia[1], está completamente de acordo toda a Escritura. Então tenha sido ela dita pelo próprio Jesus e escrita por Mateus; ou tenha sido ela adicionada posteriormente, é justo que olhemos para essa frase como uma declaração que responde com perfeição a todo conteúdo da oração do Pai Nosso.

REFLEXÕES FINAIS

Se em minha vida não me comporto como filho de Deus, se não amo o meu próximo, é inútil dizer: PAI NOSSO. Se os valores que eu busco são representados pelos bens da terra, é inútil dizer: QUE ESTAIS NO CÉU. Se penso apenas em ser, cristão por medo, superstição e comodismo, e não respeito ao Senhor com minhas atitudes é inútil dizer: SANTIFICADO SEJA O VOSSO NOME.  Se acho a vida aqui tão sedutora e não prego o que Jesus pregou, é inútil dizer: VENHA A NÓS O VOSSO REINO.  Se no fundo o que quero mesmo é que todos os meus sonhos e minhas vontades sejam satisfeitas e que todas se realizem, é inútil dizer: SEJA FEITA A VOSSA VONTADE. Se prefiro acumular riquezas, desprezando os que passam necessidades, será inútil dizer: O PÃO NOSSO DE CADA DIA NOS DAI HOJE. Se não me importo em ferir, injustiçar, oprimir e magoar aos que atravessam o meu caminho, é inútil dizer: PERDOAI AS NOSSAS DÍVIDAS, ASSIM COMO PERDOAMOS OS NOSSOS DEVEDORES. Se escolho sempre o caminho mais fácil, que nem sempre é o caminho de Cristo, é inútil dizer: NÃO NOS DEIXE CAIR EM TENTAÇÃO.  Se por minha vontade procuro prazeres materiais e tudo o que é proibido me seduz, é inútil dizer: MAS LIVRA-NOS SENHOR DE TODO O MAL.

Ao ensinar a oração do Pai Nosso, o objetivo de Jesus era fornecer um modelo de oração aos seus seguidores, e não estabelecer simplesmente uma oração litúrgica. Por vezes nos faltam palavras para nos achegarmos a Deus em oração. Até mesmo os cristãos mais experientes às vezes se perguntam: Como devo orar neste momento?

A oração do Pai Nosso é a resposta definitiva a qualquer questionamento nesse sentido. Por isso o correto é que oremos a oração do Pai Nosso aplicando-a a nossa realidade. Em outras palavras, devemos usar a oração do Pai Nosso como se fosse uma matriz para as nossas orações.

Devemos tomar a oração do Pai Nosso e entender que nossas orações devem, em primeiro lugar, adorar a Deus em petição por sua glória, seu Reino e sua vontade. Então só depois devemos clamar por nossas necessidades físicas e espirituais e confessar os nossos pecados.


[1]     Doxologia – é literalmente “palavra de glória”, e pode ser recitada ou cantada para glorificar e honrar ao SENHOR. Pode-se ainda ser usada para começar ou finalizar uma oração, discurso, ou como uma declaração de fé espontânea.

Pr. Dr.Gervásio Melquiades Gomes

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