O estudo da Bíblia é sempre uma questão de motivação. Geralmente na vida encontramos tempo para fazer o que realmente desejamos fazer. Se observarmos o valor da Palavra de Deus, sem dúvida iremos desejar estudá-la. Mas, para vermos seu valor, precisaremos enxergar através dos olhos da fé e ter um coração transformado que cultive os valores divinos. Caso contrário, um jogo de futebol ou um programa de televisão serão mais atraentes e animados. É um coração transformado que nos capacita a enxergar o valor eterno das Escrituras em contraste com o valor transitório e olvidável do resultado de um jogo de futebol.
O que posso fazer é sugerir um método. Ele consiste de passos que provaram ser úteis para muitas pessoas que resolveram estudar a Palavra de Deus, porém, para termos um método correto de estudo das Escrituras, precisamos fazer o seguinte:
1) Ore para que o Senhor faça de você uma pessoa ensinável por meio de seu Espírito Santo.
2) Depois, em oração, selecione o livro da Bíblia a ser estudado. Provavelmente o Evangelho de João é o escolhido mais frequentemente, por possuir uma boa didática. A carta de Paulo aos Romanos seria o segundo texto preferido.
3) Comece com uma porção pequena. Mesmo entendendo que o objetivo final será estudar a Bíblia inteira. Lembre-se que um grande trabalho é feito por muitos pequenos trabalhos. Você não consegue estudar a Bíblia inteira de uma vez, nem mesmo um livro inteiro, mas você pode estudar alguns versículos. É aí que se começa.
4) Em um caderno escreva em forma de pergunta tudo sobre as passagens que não esteja claro. Quando as pessoas me perguntam como estudar a Bíblia, eu invariavelmente respondo: “Com um ponto de interrogação no cérebro”. Isso não significa que eu questiono a inspiração ou a infalibilidade da Palavra. Nem por um segundo! Mas eu encaro os problemas honestamente e pergunto: “O que isto significa?”.
5) Frequentemente releia a passagem, memorize-a se for possível, até que sua mente fique saturada das palavras da Escritura. Geralmente à medida que você medita sobre a passagem, a luz surgirá e você pensará em outros versículos que esclareçam ou suplementem aquela porção. Dessa forma você compreenderá: o que o texto diz sobre você, o que o texto diz sobre Deus, o que Deus fez, Como Deus fez e o que Deus deseja que eu faça.
6) Leia bons comentários sobre a Bíblia quantos puder encontrar. Seja como o pescador que pesca com rede, buscando ajuda de onde puder encontrar. Contudo, você deve tomar cuidado para não permitir que os comentários tomem o lugar da Bíblia em si. E, logicamente, você deve ler com discernimento, testando todos os ensinamentos através da Bíblia e se firmando naqueles que forem bons. Como sempre se diz, coma a laranja e deixe as sementes.
Eu sei que há alguns cristãos que insistem em que devamos ler apenas a Palavra de Deus. Eles parecem se orgulhar de serem independentes de qualquer ajuda de fora, e isso aparentemente deve garantir a pureza de sua doutrina. Porém me preocupo com este tipo de pessoas que têm essa atitude. Primeiramente, ela negligencia o fato de que Deus deu mestres à Igreja, e, como estes são dons que vêm de Deus, não deveriam ser desprezados. O ministério dos mestres pode ser oral ou escrito, mas os benefícios são os mesmos.
7) Discuta as perguntas e questões com outros cristãos e tente obter respostas. É maravilhoso como o Senhor fornece respostas satisfatórias como resultado de estudo diligente durante anos.
8) Estude com intenção de obedecer ao que está lendo. Não se esquive do pleno ensinamento da Palavra. Lembre-se que a obediência é o órgão do conhecimento espiritual.
9) Passe a outros aquilo que você aprendeu. Isso o ajudará a fixar o conteúdo em sua mente e deve ajudá-lo a animar os que receberem sua explicação. Nunca separe a doutrina do dever. É por isso que alguém disse que todo verbo na forma indicativa tem um imperativo, isto é, toda afirmação de fato está ligada a algo que devemos fazer.
10) Evite a má exegese encontrada na literatura “cristã” sobre a Bíblia. Não leia comentários sobre as Escrituras Sagradas fundamentado na consulta de textos bíblicos suspeitos de heresias como, por exemplo: de Testemunhas de Jeová, Ciência Cristã, Reverendo Moon, etc, ou até comentários e dicionários bíblicos editados pelo cristianismo, porém de autores cuja opinião não se ajusta com a Bíblia.
Devemos aprender que o único critério de verdade das Escrituras Sagradas é a própria Escritura Sagrada. O ponto fundamental é que não podemos ensinar opinião humana incorreta, porém, ao mesmo tempo devemos ser honestos em reconhecer que entre toda a palha há comentários que se ajustam com a verdade.
Aqui convêm citar o critério bíblico: “examinai tudo e reter o bem” (1º Tessalonicenses 5:21). Devemos aprender a ter uma perfeita noção de discernimento para distinguir o trigo da palha, o ouro da escória.
11) Não podemos absorver a “teologia” dos que nos rodeiam. Uma leitura atenta nas Escrituras comprova que esta sempre foi a causa principal do desvio da fé do povo de Israel, ou seja, ele absorveu os conceitos e costumes dos povos vizinhos, apesar das claras advertências que lhe foram dadas. Os famosos “Modismos” criam teologias e tendências doutrinárias que, por se tornarem populares, agradam a multidões de pessoas despreocupadas com o estudo sério e a comprovação acurada da verdade. O que chamamos de “modas” teológicas não é necessariamente sinônimo de sucesso espiritual correto, pois, esse sucesso na maioria das vezes está fundamentado numa mentira.
Vejamos um exemplo: As multidões seguiram aqueles homens que se rebelaram contra Moisés no deserto, o bezerro de ouro teve sucesso como atrativo visível trazendo de volta uma velha fé, nesse momento o povo de Deus trouxe o Egito para dentro de si. Era a moda do momento cantar e dançar em volta do novo ídolo que brilhava sob os raios do sol matinal. Era contagiante a alegria desse povo, eles pareciam tão felizes! Josué pensou até que eram gritos de batalha. Porém, não havia nada de verdade, era a alegria e o entusiasmo momentâneo de uma falsidade religiosa velha e atraente, uma falsidade cheia de dança e euforia. Condenável condição do povo! Triste desvio da fé! Tudo era vão e ilusório (Leia atentamente: Êxodo 32:4‐7 e versos 17‐19).
Na sua misericórdia, porém, Deus corrigiu o povo, com severidade, é certo, mas eles deveriam aprender uma dura lição, uma amarga experiência que ficaria marcada para gerações futuras. Devemos sempre examinar a fé à luz da revelação que foi dada. Devemos examinar pelas próprias Escrituras toda nova tendência, todo modismo e teologia nova. Sejamos especialmente futuros líderes, com uma fé madura suficiente para poder discernir o certo do errado.
12) Todo estudante da Palavra de Deus é um teólogo e um teólogo não possui um “interprete oficial” da Bíblia. Como por exemplo: Acreditam os católicos que seja o papa o único a determinar o que é certo ou errado em questões de doutrina, ou como os Russelitas (Testemunhas de Jeová) que afirmam que o único interprete correto da Bíblia é o chamado “corpo governante”. O teólogo deverá aprender a estudar de forma correta para determinar com exatidão o que a Escritura está dizendo. Se não fizermos isto, estaremos de alguma forma endossando uma espécie de “credo oral” que substitui as Escrituras como critério de verdade. Devemos perceber que inúmeras vezes o “credo oral” passou a ser “credo escrito” (Exemplo: credo de Nicéia). E se estabeleceu definitivamente na igreja como doutrina. Porém, nos dias de hoje não é assim que um verdadeiro teólogo deve agir, se ele é e continuará a ser um estudante espiritual da Palavra ele mesmo deverá aprender de Deus a encontrar o sentido correto das palavras bíblicas que encontra em seu estudo. Deverá ser estabelecido como verdade unicamente o que as Escrituras realmente ensinam e nunca uma tradição, por mais anos ou séculos que ela tenha.
RECONHECIMENTO DA AUTORIDADE DAS ESCRITURAS COMO SAGRADAS
Com toda certeza Deus entregou à humanidade perdida uma revelação por escrito, na qual Ele revelou‐se desde o início dando assim, a conhecer o Plano de Salvação. Essa Revelação possui autoridade suficiente para não ser questionada, e para que a mensagem divina possa ser preservada para todas as gerações. Essa revelação é ao mesmo tempo uma revelação escrita, para evitar que a mensagem seja esquecida, alterada ou distorcida. Ela também é inspirada e conclusiva, para impedir que seja substituída por outra de opiniões humanas, variadas e contraditórias.
Essa revelação é também compreensível, objetiva e clara, e está ao alcance de todos, para que todo aquele que deseja alcançar a salvação prometida, encontre na simplicidade dessa revelação esse caminho. Em resumo acreditamos que Deus nos deu uma revelação com autoridade, por escrito, inspirada e compreensível, a qual chamamos de Bíblia Sagrada.
As Escrituras Sagradas ou a Bíblia Sagrada é o registro dessa Vontade divina. Logo, é essencial que estudemos a Palavra de Deus e procuremos compreendê‐la. Um dos conselhos mais repetidos nas Escrituras, direta ou indiretamente é justamente para que procuremos entender a Revelação. Por exemplo, esta frase registrada no evangelho de João e é um dos conselhos mais conhecidos pelos cristão: (Jo 5:39 – Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam.)
O Cristão que deseja entender melhor a Palavra de Deus, deve ter necessariamente um método de estudo das Escrituras, pois, já analisamos em detalhes as razões e as necessidades de ter um método adequado de estudo.
O Texto sagrado deve ser estudado seguindo um padrão, uma forma que seja correta e evite os desvios “teológicos”, devemos seguir um método que nos aproxime com exatidão da verdade bíblica. Se falarmos em método, falaremos também de metodologia. Vejamos a definição desses conceitos para entendermos melhor este assunto: Método – é um procedimento organizado que conduz a certo resultado. Os métodos podem ser: Processo ou técnica de ensino; Modo de agir, de proceder; Regularidade e coerência na ação. Metodologia – Conjunto de métodos, regras, disciplina e sua aplicação.
Um dos métodos bastante conhecido é o histórico‐crítico. Esse método de estudo e pesquisa bíblica procura levar em consideração o contexto histórico que envolve o texto, fazendo uma análise e avaliação profunda, acurada (crítica) de todas as relações desta informação com o sentido original do texto. É importante notar a frase “sentido original”, pois há uma ênfase quanto ao sentido gramatical e histórico da narrativa bíblica que é a meta ou alvo deste método.
Realiza‐se com o texto bíblico a tarefa de um pesquisador, o mesmo trabalho de um historiador que avalia um documento antigo com o propósito de compreende‐lo, pois acredito que essa é a única maneira de encontrar o significado original do texto.
Ao estudar um texto devemos antes levar em conta a época e a situação original em que o texto foi escrito. Deve-se considerar que as Escrituras Sagradas é a palavra de Deus dada através de pessoas históricas ‐ Ele “havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas” (Hebreus 1:1), portanto, o trabalho de compreender as Escrituras é o trabalho de um historiador, e a história é uma ferramenta de trabalho. O próprio texto bíblico, em geral, contém elementos históricos suficiente para nós dar uma idéia da situação original. Neste ponto dois elementos precisam ser levados em consideração quando tratamos das Escrituras Sagradas:
1º) – Sua particularidade histórica. O que isto significa? A particularidade histórica diz respeito ao que estava acontecendo na situação original.
2º) – Nosso método é um método crítico porque requer o uso de nossas faculdades mentais em raciocínios, julgamentos, estudos, pesquisa, esforços. Lembremos que a Eterna Inteligência e Bom Censo de Deus estão refletidos em Sua Palavra. É necessário que usemos a inteligência que ele nós deu para compreende‐la (Somos criados a sua imagem e semelhança, isso significa que devemos compreender tanto racionalmente como espiritualmente a sua Palavra).
A palavra: “crítico” geralmente tem um sentido negativo, não queremos usa‐la nesse sentido. O método é crítico porque pretende avaliar os resultados obtidos e em construir um pensamento correto, portanto, é uma crítica construtiva e nunca contra as Escrituras.
Sendo assim, a tarefa de um teólogo na sua aproximação da Bíblia é dupla: Primeiro, descobrir o que o texto significa originalmente, esta tarefa tem um nome científico, é chamada de exegese (comentário ou dissertação que tem por objetivo esclarecer ou interpretar minuciosamente um texto ou uma palavra). Segundo, devemos aprender a discernir o mesmo significado na multiplicidade de contextos novos ou diferentes dos nossos próprios dias, esta é a tarefa da hermenêutica (Hermenêutica é a filosofia que estuda a teoria da interpretação, que pode referir-se tanto à arte da interpretação quanto à prática e treino de interpretação. A hermenêutica tradicional se refere ao estudo da interpretação de textos escritos, especialmente nas áreas de literatura, religião e direito).
DIFERENÇA ENTRE EXEGE E HERMENÊUTICA BÍBLICA
a principal diferença entre a exegese e a hermenêutica são as regras e técnicas específicas que cada sistema de interpretação possui, ou seja, a exegese é a explicação crítica, a interpretação, o comentário ou a dissertação sobre o sentido das palavras, das construções gramaticais e dos condicionalismos históricos dos textos religiosos em análise. Hermenêutica é a ciência da interpretação das palavras e dos textos.
exegese é ler e explicar os textos sagrados em empatia com os escritores bíblicos. Exegese no método de um teólogo é um trabalho: científico, crítico, histórico, literário e espiritual, enquanto a hermenêutica é a síntese dos resultados da exegese, tornado‐a relevante para o leitor, ou auditório.
Portanto, O trabalho de estudar as Escrituras Sagradas é um grande projeto, mas também um grande desafio. Deve ser conduzido com todo cuidado e perseverança. Excelência e compenetração são o mínimo que se pode almejar no estudo do Livro. O trabalho de um teólogo deve ser caracterizado pela alta qualidade. Na exposição e no ensino dos preceitos e conceitos bíblicos, esta alta qualidade só é atingida com empenho e dedicação.
A maior parte dos desvios da verdade está na confusão entre a palavra dos homens e a Palavra de Deus. Pelo estudo acurado e cuidadoso da palavra Divina devemos nos assegurar de transmitir a mais pura vontade divina, e não nossa opinião sobre ela. A Escritura não pode falhar (João 10:35), este é um dos pressupostos de Jesus, devemos aprender a pensar e acreditar dessa maneira também.
A inescrutabilidade – O que isso significa? (Deuteronômio 29:29) Existem coisas que nunca saberemos agora, deste lado da eternidade. Diante disso devemos ter especial cuidado ao lidar com o que não foi claramente revelado nas Escrituras, não estamos autorizados a fazer conjecturas ou construir suposições sobre assuntos obscuros, pois muitas coisas foram guardadas sob o conhecimento apenas de Deus. Outro bom exemplo está em Atos 1:7.
O que se requer de uma pessoa que estuda a Bíblia é um trabalho em três etapas: Examinar exaustivamente o texto, compreender o texto no seu contexto histórico e explicar com exatidão e correção.
Um exemplo dessas etapas encontra-se em Atos 8, neste texto podemos notar claramente estes três elementos. A Escritura estava sendo lida (pelo etíope – verso 28), mas não estava sendo compreendida (versos 30‐31). Filipe, quando entrou em contato com o etíope, já compreendia o texto (porque tinha estudado com profundidade), e, portanto, explicou corretamente a passagem (versos 32‐36). O etíope não entendia o texto apesar de fazer a pergunta correta: “a quem se refere o profeta?” (verso 34). Faltava‐lhe informações históricas e textuais; de fato; faltava‐lhe uma visão maior do plano de Deus, ou seja, do significado das promessas messiânicas no livro de Isaías.
O grande perigo que existe em esboçar uma metodologia é levar alguém a pensar que cada item é independente dos outros. Na verdade todos os itens do método proposto são interdependentes e formam um conjunto inseparável. Quatro palavras‐chaves resumem o método: TEXTO – CONTEXTO – PALAVRAS – IDÉIAS. Estas são as ferramentas empregadas na busca de informações fundamentais para a compreensão das Escrituras.
Para estudar a Bíblia é necessária a combinação de oração e estudo. Quando falamos em como estudar a Bíblia, primeiramente precisamos lembrar que ela é um livro inspirado por Deus. Portanto, é impossível interpretá-la corretamente sem o auxílio do Espírito Santo. Todavia, ela também é um livro humano, no sentido de que foi escrita por homens. Por isto ela possui particularidades gramaticais e estilos literários que exigem um estudo cuidadoso.
Por mais que estudar a Bíblia pareça ser uma tarefa árdua e difícil, certamente ela é muito gratificante e representa um privilégio enorme do qual desfrutamos.

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