Pr. Dr. Gervásio Melquiades Gomes
Nenhuma parte das Escrituras tem sido estudada tão vastamente como foram os quatro Evangelhos: inumeráveis sermões foram pregados a partir deles, e as divisões, a cada dois ou três anos, de cada um dos Evangelhos é escolhida como assunto para estudo em nossas Escolas Dominicais. No entanto, o fato permanece e são os estilos e as características particulares de Mateus, Marcos, Lucas e João que raramente são percebidos, mesmo por aqueles mais familiarizados com seus conteúdos.
O QUE SIGNIFICA A PALAVRA EVANGELHO – É a boa notícia que constitui o coração do Novo Testamento e fundamenta a pregação da Igreja desde os tempos apostólicos até os nossos dias. Quando falamos dos evangelhos, queremos dizer que é o conjunto dos livros do Novo Testamento, que, sob a inspiração do Espírito Santo, foram escritos para comunicar a boa notícia da vinda de Cristo e, com ele, a do Reino de Deus.
Os quatro Evangelhos compreendem cerca de 46 por cento no Novo Testamento. A igreja primitiva colocou os Evangelhos no início do Novo Testamento, não por serem eles os primeiros livros escritos, mas por serem o fundamento sobre o qual o livro de Atos e as Epístolas são edificados. Nos 4 Evangelhos, Cristo entra no mundo, morre pelo mundo e funda a sua Igreja.
Desde os primeiros anos do cristianismo essa pergunta já era feita. Por que existem apenas quatro evangelhos ? Na verdade existem quatro evangelhos chamados canônicos e outros tantos apócrifos[1]. Daí então surge outra pergunta. Não seria suficiente apenas um evangelho, em que se poderia colocar todas as informações necessárias para entender a mensagem de Jesus? Realmente aconteceu a tentativa de colocar os quatro evangelhos em apenas um, contemplando tudo o que estava escrito nos 4 evangelhos. Este trabalho se chamou Diatessaron[2], sendo o texto em siríaco dos evangelhos, fundindo os quatro evangelhos em um só. O autor deste trabalho foi Taciano, no segundo século. Ao responder a pergunta olhamos os evangelhos do Novo Testamento, Mateus, Marcos, Lucas e João.
É bem verdade que cada um dos quatro Evangelhos tem muito em comum no geral, todos eles lidam com o mesmo período da história, porém, cada um registra os ensinamentos e milagres do Salvador, cada um descreve Sua morte e ressurreição. Mas, enquanto os quatro evangelistas têm muito em comum, eles também têm suas próprias peculiaridades, e é notando suas variações que somos levados a ver seus verdadeiros significados e estilos, e apreciar suas perfeições.
Encontramos, portanto no Novo Testamento quatro evangelhos escritos pelos quatro evangelistas conhecidos em nossas leituras do Novo Testamento. A ordem destes evangelhos segundo o Novo Testamento é: Mateus, Marcos, Lucas e João. Mas ao colocarmos em ordem cronológica para estudos com mais detalhes, seguiremos a seguinte ordem: Evangelho de Marcos escrito por Marcos na cidade de Roma no ano de (64 d.C.); para a comunidade formada de alguns judeus e a maioria habitantes de Roma, o evangelho de Mateus escrito por Mateus em Jerusalém para comunidade de Judeus cristãos (70 d.C.); evangelho de Lucas escrito por Lucas em Antioquia para os gentios por volta de (80 d.C.), estes três evangelhos são chamados de sinóticos[3], pois tem muitas semelhanças entre si e podem ser comparados em seus textos e feitos estudos a partir destas comparações. Por exemplo: Dos 661 versículos de Marcos, 500 reaparecem em Mateus de forma paralela e 350 reaparecem em lucas. Além disso, há outros 235 versículos comuns a Mateus e a Lucas, que não são encontrados em Marcos. E por último temos o evangelho de João escrito por João para a comunidade dos gentios na Ásia Menor em Éfeso (95 d.C.).
A FORMAÇÃO DO CÂNON – Os critérios usados para incluir os quatro evangelhos que conhecemos hoje, foram os mesmos para o restante do Novo Testamento: apostolicidade (autoria de um só apóstolo), ortodoxia (não contradizer o testemunho apostólico) e relevância (amplo uso por toda a igreja).Da explicação acima está o porque da existência de 4 evangelhos, eles foram os textos usados em 4 comunidades espalhadas pelo império Romano. E cada comunidade imprimiu no texto, a riqueza da sua compreensão ou as verdades que a comunidade deveria privilegiar.
QUEM ERAM OS EVANGELISTAS – Os evangelistas João e Mateus foram apóstolos de Jesus, entretanto Marcos foi um discípulo de Paulo no início e depois foi uma espécie de secretário de Pedro em Roma e Lucas, de profissão médico acompanhou Paulo na difusão do evangelho no mundo pagão.
A palavra EVANGELISTA significa, “aquele que proclama boas notícias”, porque os evangelhos contam as “boas novas” de Jesus. Um evangelista é uma pessoa que tem o dom de pregar o evangelho, trazendo pessoas para Jesus. Deus usa o evangelista para convencer as pessoas do pecado e da necessidade de salvação. Deus distribui vários dons entre as pessoas, para a edificação da igreja. Um desses dons é o dom de evangelista (Efésios 4:11-12). A pessoa que tem o dom de evangelista tem uma capacidade especial para explicar o evangelho de maneira convincente para quem ainda não conhece.
Se fizermos uma cuidadosa leitura dos quatro Evangelhos, torna-se rapidamente visível a qualquer mente reflexiva que nenhum deles tem alguma coisa que chegue perto de uma biografia completa do ministério terreno de nosso Salvador. Existem grandes silêncios em sua vida, que nenhum dos evangelistas resolveu completar. Depois do registro da infância de Jesus, nada nos é contado até que Ele chegasse aos doze anos, e depois de um breve relato que Lucas dá de Cristo como um garoto no Templo de Jerusalém. Nada mais nos contam sobre Jesus até que alcançasse trinta anos de idade. Mesmo quando chegamos aos relatos do seu ministério, fica claro que os registros são apenas fragmentários.
Os evangelistas selecionavam apenas porções de seus ensinamentos e descrevia em detalhes alguns poucos milagres. Concernente ao registro completo de tudo o que aconteceu em sua maravilhosa vida, o apóstolo João nos dá alguma idéia quando diz que “há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez; e se cada uma das quais fosse escrita, cuido que nem ainda o mundo todo poderia conter os livros que se escrevessem” (João 21.25).
Os evangelhos narram uma pequena parte da vida, do ministério, da paixão, da morte e da ressurreição de Jesus, mas nem todos os detalhes estão presentes. A riqueza está nos textos que eram utilizados, estes textos eram significativos para os cristãos, lidos e repetidos inicialmente em forma oral, mas depois foram escritos pelos evangelistas para as comunidades espalhadas pelo Império Romano.
SE, ENTÃO, OS EVANGELHOS NÃO SÃO BIOGRAFIAS COMPLETAS DE CRISTO, O QUE SÃO? A primeira resposta deve ser: quatro livros totalmente inspirados por Deus; quatro livros escritos por homens movidos pelo Espírito Santo; livros que são verdadeiros, infalíveis, e perfeitos. A segunda resposta é que os quatro Evangelhos são livros, cada um escrito com um propósito distinto. O que está contido em suas páginas, e tudo que foi deixado fora, é estritamente subordinado a este propósito, de acordo com um princípio de escolha. cada um dos evangelistas foi guiado pelo Espírito a registrar somente o que servia para descrever Cristo nas características particulares em que ele devia ser visto, e o que não tinha relação com a característica particular foi deixado fora. Resumindo, os quatro Evangelhos apresentam-nos Jesus Cristo cumprindo quatro ofícios distintos.
EVANGELHO DE MATEUS – Mateus (um ex-cobrador de impostos e um apóstolo de Jesus), escreveu principalmente para os Judeus. Ele escreveu este evangelho para convencer os judeus de que Jesus era mesmo o Messias que estava por vir, por isso enfatiza o Antigo Testamento e as profecias a respeito desse ungido. Ele citou mais de cem passagens do Antigo Testamento e usou termos familiares aos judeus. Neste evangelho Jesus Cristo é apresentado como o Filho de Davi, o Rei dos Judeus que veio para estabelecer o seu reino, e colocou uma ênfase especial em Jesus como o Messias e escreveu sobre seus ensinos, seu reino e sua autoridade. Tudo em sua narrativa gira em torno desta verdade. Isso explica porque o primeiro Evangelho abre com um registro da genealogia real de Cristo, porque o segundo capítulo menciona a jornada dos magos do Oriente, que vieram a Jerusalém perguntando “Onde está aquele que é nascido rei dos judeus?” e nos capítulos cinco a sete, está registrado o famoso “O Sermão do Monte”, que, na verdade, é o Manifesto do Rei, contendo uma enunciação das Leis de seu Reino.
EVANGELHO DE MARCOS – Marcos (João Marcos do Livro de Atos, um jovem pregador da era apostólica), escreveu este evangelho para evangelizar principalmente os romanos. Marcos parece ter se preocupado mais com o que Jesus fez do que com o que Ele ensinou. Neste evangelho, Jesus Cristo é descrito como o Servo de Jeová, como aquele que, apesar de ser igual a Deus, humilhou-se e “tomou a forma de servo”. Tudo neste Evangelho contribui para este tema central, e tudo fora disso é rigidamente excluído. Isso explica porque não há genealogia registrada em Marcos, porque Cristo é introduzido já no início de seu ministério público (nada nos é contado sobre sua vida antes disso), e porque há mais milagres (atos de servidão) detalhados que em qualquer outro Evangelho. Ele enfatizou os milagres de Jesus porque, neles, pode-se ver o amor e o cuidado do Senhor pelas pessoas.
EVANGELHO DE LUCAS – Lucas (Doutor Lucas, acompanhou Paulo em várias de suas viagens missionárias, incluindo a viagem a Roma), esse evangelho foi escrito para os gentios (não judeus), enfatizando a misericórdia de Deus através da salvação por Jesus Cristo, principalmente para os pobres e humildes de coração. O relato de Lucas foi escrito para os intelectuais e coloca sua ênfase especial na Sua humanidade perfeita. Neste evangelho, Jesus Cristo é apresentado como o Filho do Homem, unido mas diferenciado dos filhos dos homens, e tudo na narrativa serve para mostrar isto. Assim, explica-se porque este Evangelho traça sua genealogia até Adão, o primeiro homem (ao contrário de apenas até Abraão, como Mateus), porque, como o Homem perfeito, ele é visto frequentemente em oração.
EVANGELHO DE JOÃO – João (um ex-pescador e o apóstolo “amado”) provavelmente foi escrito depois dos outros três e tem a sua própria ênfase especial. foi escrito para doutrinar os novos convertidos. Não cita nenhuma das parábolas de Jesus, porém combate com firmeza as primeiras heresias surgidas no princípio do cristianismo, como por exemplo: o gnosticismo (que negava a verdadeira encarnação do Filho de Deus) e outras seitas semelhantes, que também negavam a divindade de Jesus Cristo. E às vezes chamado de “Evangelho autótico[4]”, ou seja, aquele que tem visão própria. João apresentou Jesus como “o Filho de Deus” (João 20:31) e ressaltou Sua divindade. Este evangelho, também, foi escrito para ilustrar e demonstrar este relacionamento divino. Isso explica porque no versículo de abertura somos levados de volta a antes de o tempo começar e somos apresentados a Cristo como o Verbo “no princípio”, com Deus, e ele mesmo expressamente declarado sendo Deus; esse é o porque temos aqui tantos de seus títulos divinos, como “O Filho unigênito do Pai”, o “Cordeiro de Deus”, e a “Luz do Mundo”, etc.; é por isso que nos é contado aqui que a oração deve ser feita em seu nome, e que o Espírito Santo será enviado pelo Filho bem como também pelo Pai.
EVANGELHOS APÓCRIFOS OU PSEUDO[5] EVANGELHOS – Existiam ainda outros evangelhos, os quais são chamados hoje de apócrifos. A palavra “apócrifo” vem do grego e significa “oculto” ou “escondido”. Com relação aos evangelhos apócrifos, este termo é utilizado hoje para qualificar em geral que esses escritos não foram aceitos pela Igreja como inspirados por Deus, nem como norma de fé – ao contrário dos evangelhos atribuídos a Mateus, Marcos, Lucas e João – e que foram compostos na segunda metade do século I. Alguns evangelhos apócrifos, como o evangelho de hebreus, o Protoevangelho de Tiago, o Pseudo Mateus e o Pseudo Tomé, narram dados da vida de Jesus, de Maria e de José que não aparecem nos evangelhos canônicos. Existem pouco mais de 50 evangelhos apócrifos.
Os apócrifos mais conhecidos são: “Evangelho de Pedro”, “Evangelho segundo Tomé”, os “Evangelhos da Infância de Tomé”, “Evangelho de Bartolomeu”, “Evangelho de Maria Madalena”, “Evangelho segundo os Hebreus”, “Evangelho de Taciano” (ou Diatessaron), “Evangelho do Pseudo Mateus”, “Evangelho Árabe da Infância”, “Evangelho da Natividade de Maria”, “Evangelho de Felipe”, “Evangelho de Valentino” (Pistis Sophia), “Evangelho de Amônio”, “Evangelho da Vingança do Salvador” (Vindicta Salvatoris), “Evangelho da Morte de Pilatos” (Mors Pilati), “Evangelho segundo Judas Iscariotes” e o “Protoevangelho de Tiago”.
PALAVRAS FINAIS – A Igreja, desde o primeiro dia de sua existência, possuía um cânon das Escrituras inspiradas, que era o Antigo Testamento. Porém a Igreja primitiva tinha três autoridades: o Antigo Testamento, o Senhor e os apóstolos. Contudo, a autoridade maior e decisiva era Jesus Cristo. As palavras do Senhor e os relatos dos seus feitos começaram a ser redigidos. Em sua obra missionária, os apóstolos tiveram a necessidade de escrever a certas comunidades e estes escritos, passado algum tempo, ganharam a mesma autoridade dos escritos do Antigo Testamento. Os Evangelhos, embora não sejam os escritos mais antigos do Novo Testamento, foram os primeiros a serem colocados em pé de igualdade com o Antigo Testamento e reconhecidos como canônicos. Coube sempre a Igreja a tarefa de reconhecer quais são os livros inspirados. A riqueza da existência dos quatro evangelhos está no esforço e na tentativa da comunidade em viver a proposta de Jesus. No evangelho está escrito o que Jesus quer que a comunidade faça. Todos os quatro evangelhos que fazem parte da nossa Bíblia Sagrada, concordam que Jesus em seus feitos e palavras, age e fala em nome de Deus. Ele não é apenas um profeta, um Rei, um Sacerdote ou tampouco o agente humano do Reino de Deus. Pode haver apenas quatro evangelhos, mas há somente um Jesus e Ele é Deus.
[1] Apócrifo – Sem inspiração ou destituído de autoridade canônica, clandestino, escrito não provado.
[2] Diatessaron – é a mais importante Harmonia Evangélica, criada por Taciano, um apologista e asceta dentre os primeiros cristãos, era um assírio, discípulo de Justino Mártir em Roma. O Diatessaron era uma síntese dos quatro evangelhos em um.
[3] Sinóticos – Esse nome surge do Grego synopsis significa, vista em conjunto.
[4] Autótico – significa que não foi copiado, possui visão de um só autor.
[5] Pseudo – significa Falso ou enganoso.
Pr. Dr. Gervásio Melquiades Gomes

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