Pr. Dr. Gervásio Melquiades Gomes
DEUS É AMOR – O amor faz parte da própria natureza e essência de Deus. Ele é a fonte do amor. Se Deus não existisse, não saberíamos o que é amar. Agora, isso não significa dizer que o amor é Deus. Alguém disse bem que “o amor não define Deus, mas Deus define o amor”. Como um dos Seus atributos comunicáveis[1], o amor é um presente que Deus nos dá e Ele mesmo nos capacita a compartilhá-lo com outras pessoas.
O texto de Gálatas 5:22-23 confirma isso, ao dizer que o amor ágape[2], é fruto do Espírito Santo, ou seja, é o resultado natural da atuação do Espírito Santo em nossa vida. Portanto, se quisermos amar ao nosso cônjuge, nossos amigos e até aos nossos inimigos (Mateus 5:44), precisamos de Deus em nosso coração.
Agora, como podemos receber esse amor divino? O apóstolo Paulo afirma que “o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo” (Romanos 5:5). O verso confirma que o amor é um dom de Deus, uma dádiva que Ele nos concede através da atuação do Espírito Santo em nosso coração.
Nem tudo o que dizem por aí é a exata expressão da realidade. Poetas e cantores tentaram definir o que é o amor. Vinícius de Morais o expressou nesses termos: “Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”. Jorge Vercilo cantou assim o amor: “O amor se fez me levando além onde ninguém mais. Criou raiz, ancorou de vez, fez de mim seu cais lendo a rota das estrelas”.
Sabe o que é interessante nessas poesias sobre o amor? É que elas manifestam a opinião popular sobre o amor, e essas manifestações nem sempre terão razão, pois a teologia popular nem sempre expressará a realidade objetiva. É altamente questionável a validade da máxima: “a voz do povo é a voz de Deus”.
De acordo com os dicionários, amor tem sido definido como “sentimento que impele as pessoas para o que se lhes afigura belo, digno ou grandioso; forte inclinação, de caráter sexual, por pessoa de outro sexo; afeição, grande amizade” (Dicionário UOL-Michaelis – outros dicionários seguirão a mesma linha). A primeira coisa que salta aos olhos nessa definição e que precisamos questionar é o caráter espontâneo que atribuem ao amor, como se ele tivesse vida própria e vontade independente. O mais famoso dos poetas da MPB, Vinícius de Morais, o retratou como “chama”. Sendo assim, não é eterno; pode se apagar. Então ele encerra com um dos mais belos paradoxos do ponto de vista poético: “que seja eterno enquanto dure”.
Embora seja belo o paradoxo, não é exatamente isso o que a Bíblia diz sobre o amor. A Bíblia retrata o amor de três maneiras: “eros”que tem como significado amor sexual, “phileo[3]”, que denota amizade; e “agapao”, que em algumas passagens denota intensidade, e afeição no sentido moral e social. Alguns o retratam como incondicional (como o “amor de Deus”). De forma geral, a concepção popular afirma que o amor é um sentimento autônomo que governa a mente, a vontade e as emoções. Enquanto ele se faz presente, move o ser humano para lá e para cá. É quando o coração bate mais forte, as mãos ficam geladas. Faz parte de uma “química”, disse alguém.
Enquanto penso nessas coisas, me vem à mente uma dúvida. Se é assim, por que a Bíblia ordena que amemos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos? Veja: “Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de todas as tuas forças. (…) Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (Marcos 12:30-31).
O povo judeu já sabia que o mandamento número um era amar a Deus com todo o coração, alma, mente e, como Marcos acrescenta, força. Ao apontar para todos esses quatro aspectos do ser humano, Jesus simplesmente reúne tudo o que a pessoa é. Jesus está dizendo: “Você precisa amar a Deus com todo o seu ser.”
Vou mais além. Se o amor é um sentimento espontâneo e de “vontade própria”, por que Paulo ordenou: “Maridos, amai vossas mulheres como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela” (Efésios 5.25)?
Meu entendimento é o seguinte: Amor não é espontâneo; é fruto de uma decisão. Isso faz com que esses mandamentos da Bíblia façam sentido. De outra forma, se o amor fosse um sentimento, pareceria insano e controverso que o Senhor ordenasse o amor a Deus e ao próximo.
Essa maneira de ver o amor (como um sentimento) traz muitas e sérias implicações. Em primeiro lugar, a noção popular de que eu preciso sentir o amor em meu coração para depois demonstrá-lo a alguém é uma falácia. Você já notou que há pessoas que não amam ao próximo e dizem que não podem fazer nada, porque esse sentimento não brotou em seu coração ainda. Na verdade, o que essas pessoas expressam é a falta de amor (para não dizer ódio) que foi fruto de sua decisão e, para justificar, apela para a falta de espontaneidade do amor. O cristão não tem saída. Amar o próximo é um mandamento dado por Deus e não uma escolha que eu tenho que fazer. Quando o amor se torna fruto de uma decisão em nossa vida, o convívio se torna mais saudável e a reconciliação mais fácil.
Em segundo lugar, aqueles que enfrentam uma crise no casamento e alegam que o amor esfriou e que, assim, não podem mais fazer nada não possuem razão para tal alegação. O amor não é uma chama que se apaga por si só. É uma ordem do Senhor para que seja cultivado e mantido. O amor no casamento é fruto de uma decisão também. Esse é um dos motivos pelo qual Deus não aceita a separação.
Eu decidi amar minha esposa porque entrei em aliança com ela. Conforme relato bíblico, Isaque primeiro se comprometeu com Rebeca; depois a amou (Gênesis 24.67). Hoje, infelizmente o casamento tem sido banalizado por causa dessa visão de que o amor tem que ser espontâneo. Hoje eu “amo”, então me caso. Amanhã “não amo mais”; então me separo. Essa é a filosofia (demoníaca) das novelas e de alguns livros de romance. Porém, a Bíblia diz: seja fiel à sua aliança; ame! (Malaquias 2:14; Efésios 5:25). O amor é uma decisão!
VEJAMOS ALGUNS VERSÍCULOS E APLICAÇÕES DO AMOR NA BÍBLIA:
1) Nada pode nos separar do amor de Deus. A Bíblia diz em Romanos 8:38-39: “Porque estou bem certo de que, nem a morte, nem a vida, nem anjos, nem principados, nem coisas presentes, nem futuras, nem potestades, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor.” – Esta é uma das maravilhosas promessas feita pelo Senhor e tudo que o Senhor promete, Ele cumpre. Isto significa dizer que: A promessa do Senhor é a expressão da Sua vontade, baseada na decisão de nos amar, pois o Senhor quer o nosso bem, Ele quer a felicidade dos seus filhos.
2) O amor de Deus é um amor de sacrifício. A Bíblia diz em João 3:16: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. ” – Esse é um dos textos mais conhecidos e mencionados de toda a Bíblia. Muitos dizem que nenhum outro versículo “explica tão bem a relação de Deus com a humanidade e o caminho da salvação”. Deus nos deu o que tinha de melhor, de mais precioso, para que fosse sacrificado naquela cruz e tivéssemos vida eterna. Nas palavras do Apóstolo Paulo, a morte de Jesus Cristo na cruz foi a maior prova de amor de Deus para nós. Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores.” (Romanos 5:8)
3) O amor de Deus dura para sempre. A Bíblia diz em Salmos 136:1: “Dai graças ao Senhor, porque ele é bom; porque a sua benignidade dura para sempre.” – Neste Salmo, o Salmista compõe uma belíssima canção de adoração a Deus. A repetição intencional: “O seu amor dura para sempre!”, que aparece 25 vezes nos mostra que o amor do Senhor é eterno, cuida de nós e sustenta todas coisas.
4) Como a Bíblia define o amor? A Bíblia diz em 1 Coríntios 13:4-7: “O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não se vangloria, não se ensoberbece, não se porta inconvenientemente, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal; não se regozija com a injustiça, mas se regozija com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.” – O apóstolo Paulo, ao escrever essas lindas palavras, ele estava dizendo que nada tem valor se não tiver amor, pois o amor é o maior de todos os mandamentos.
Quando o apóstolo Paulo escreveu para a igreja de Éfeso, Filipos, Colossos e Tessalônica ele agradeceu a Deus pelo amor existente entre aqueles irmãos. Mas, quando escreveu para Corinto, não o fez. Pelo contrário, ele agradeceu pelos dons. Corinto era uma igreja cheia de dons. Mas era uma igreja imatura e carnal. Paulo não agradece pelo amor, porque esta era a grande deficiência da igreja de Corinto. Quando lemos toda a carta descobrimos que eles não tinham amor. O amor deles era raso e inexpressivo. E isso nos levou a 1 Coríntios 13, o grande capítulo do amor. Infelizmente, costumamos ler este capítulo sem considerar o contexto total da carta. Quando entendemos dentro do contexto, vemos que 1 Coríntios 13 é antes uma condenação da carnalidade dos crentes de Corinto. Paulo diz que a vida comunitária sem o amor não é nada. A seguir ele descreve o que é amor, o que não é amor e o que o amor faz.
Não é por acaso que a lista de Paulo sobre as características que identificam o fruto do Espírito começa com o amor. Para entendermos verdadeiramente o que é o amor, precisamos deixar de lado, em primeiro lugar, as ações distorcidas e doentes do diabo que assumem a roupagem bonita e formosa de amor, pois essas, são formas doentias e malignas de prender o ser humano em cadeias por muitos anos. O amor por ele(diabo) apresentado é uma forma de mascarar a chantagem emocional, o abuso de poder, o sentimentalismo ridículo, a vontade de dominar ou subjugar o próximo, tirar das pessoas o livre-arbítrio dado por Deus, manipular uns aos outros, colocar o fardo da preocupação sobre os ombros de quem ama e de quem é amado, desproteger uma vida em decorrência da preocupação descontrolada, desejos carnais ou simples atração física, dependências emocionais, ciúmes e comportamentos possessivos que geram até impulsos homicidas em grau extremo de descontrole e outras atitudes ruins que só trazem dor e opressão. Este é o amor apresentado por satanás no presente século. Realmente, o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus. (2º Coríntios 4:4)
5) O amor é para todos, sem exceção. A Bíblia diz em Mateus 5:43-44: “Ouvistes que foi dito: Amarás ao teu próximo, e odiarás ao teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem.”
O ponto central do texto acima é: “amai os vossos inimigos”. Amar quem nos ama é fácil. Mas quando alguém nos insulta ou maltrata, muitas vezes reagimos com ódio, desprezo e rancor. Mas, Jesus nos ensinou a ser diferentes. Ele disse que não basta amar nossos amigos. Precisamos ir mais longe. Significa que devemos querer o bem até mesmo de quem nos maltrata. Precisamos aprender a perdoar e a deixar o rancor. Os filhos de Deus não retribuem mal por mal mas vencem o mal com o bem (Romanos 12:21).
CONCLUSÃO – Depois de ler isso, alguém pode até se perguntar: o que posso fazer para que o amor seja cultivado, como fruto de uma decisão? Antes de mais nada, ame! Decida amar. No caso dos casados, ame sua esposa, ame seu marido. Fale de seu amor, promova momentos agradáveis; evite as brigas e palavras grosseiras. Abuse dos presentes, do carinho, do abraço afetuoso. Surpreenda com flores, com um telefonema. Nos outros casos, do convívio fraternal, tenha consideração por seu próximo, mesmo porque ele foi feito à imagem de Deus. Pense sobre ele: “será que ele está bem? Será que está feliz? Como posso ajudar?” A Bíblia diz que devemos considerar “uns aos outros para nos estimularmos ao amor e às boas obras” (Hebreus 10:24). Faça do amor sempre uma decisão positiva. Ame a Deus! Ame ao próximo! Porque como disse Jesus Cristo, da obediência a estes mandamentos dependem toda a lei e os profetas.
[1] Atributos comunicáveis de Deus – São atributos do Senhor, no qual Ele se comunica com o ser humano. Por exemplo: o amor, a bondade, a fidelidade, etc.
[2] Ágape – significa, amor de Deus pelo ser humano.
[3] Phileo – significa o amor que existe entre pais e filhos, e entre irmãos. Este tipo de amor, que se desenvolve com o tempo, também deve existir no casamento. No Novo Testamento, por exemplo, o amor philos é empregado para indicar afeição intima (João 11:36; Apocalipse 3:19) e para indicar o prazer e satisfação de se fazer coisas agradáveis (Mateus 6:5).
Pr. Dr. Gervásio Melquiades Gomes

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